Dar precedência ao amor

Meu
nome éEleonora, tenho 29anos de idade esounapolitana, vivo em Granada,na casadopostulado europeu dasmissionárias
combonianas. Um tempo de graça no qual o Senhor permite que eu
experimente a vida de comunidade e da missão segundo o carisma do nosso
fundador Daniel Comboni. Antes de entrar em detalhes sobre minha experiência
aqui no postulado, conto-lhes, em termos gerais, a respeito de Granada, cidade
onde vivo atualmente. Granada é uma das províncias de Andaluzia, uma cidade
cheia de riqueza cultural, dominada por cerca de oito séculos pelos árabes,
ainda mantém um caráter multicultural. Esta é uma cidade que mostra as marcas
de uma história de conquistas e invasões, mas também de opressões políticas,
por exemplo, durante o franquismo. Hoje Granada, como mencionado acima,
conserva uma identidade multicultural, de fato, situada a poucos quilômetros da
costa, é o lar de muitos imigrantes vindos da África e também da América
Latina. O bairro onde moramos “la Chana” é um local que manifesta a grande
riqueza cultural da cidade, e como muitos outros bairros, tem também inúmeras
dificuldades.

É precisamente nesta área de “dificuldade” que a nossa comunidade
atua, lançando cada dia o desafio revolucionário que vê, no centro, a causa do
único e autêntico amor de Cristo. Atualmente somos oito em comunidade: cinco
irmãs e três postulantes. Também esta comunidade tem uma riqueza multicultural,
a vivência cotidiana desta variedade, permite-me redescobrir a verdadeira face
da diversidade, que sempre traz a enorme riqueza de valores humanos. Chamadas a
viver nesta maravilhosa realidade, cada dia vivemos o “grande desafio da
comunidade”, lugar de contradições, mas também a realidade onde se pode fazer
experiência e contemplar o rosto do verdadeiro Deus, lugar de crescimento
humano e espiritual no convívio, na partilha, na oração e no serviço à causa
dos “últimos”, dos “pequenos”, dos “abandonados”, dos “perseguidos”, ali onde
sempre encontramos e adoramos “a carne de Cristo”.  

Cada irmã da
comunidade atua nos diversos setores, tais como, o projeto “girassol”, ao qual
se dedica Melin, acompanhada de algumas irmãs da comunidades e de um grupo de
Leigos e leigas. Esta é uma iniciativa das missionárias combonianas, que é atualmente
gerida pela paróquia Santa Maria Micaela, situado no bairro em que vivemos. Um
projeto que põe ao centro de tudo o imigrado, e tenta responder às suas
necessidades:  a aprendizagem da língua
local, a necessidade de uma profissão, a interculturalidade.  A estas necessidades tenta-se responder,
oferecendo uma escola de espanhol, cursos de formação profissional, mas também
relacionamentos solidários e momentos de partilha e de festa. É bonito ver como
esta realidade, nascida de uma exigência local, está aos poucos se tornando um
lugar de partilha e colaboração recíproca entre leigos e leigas, religiosos e
imigrantes. A festa da cultura, de fato, é um dos muitos momentos no qual se
expressa especialmente esta partilha e colaboração, um momento de intercâmbio
cultural em que se redescobre a diversidade também religiosa, como algo
autêntico, que une e caracteriza as identidade individuais.

Outra
realidade é a das prisões. Filipa, uma das postulantes, se dedica a esta
atividade, e com frequência  a comunidade
recebe o grande dom de encontrar os prisioneiros e passar momentos de
solidariedade e partilha, como na véspera de Natal. Nesta realidade,
encontram-se pessoas e situações de vários tipos, todas situações que no
primeiro momento nos levariam a condenar essas pessoas por ações cometidas, e
só quando se tem um diálogo aberto com elas, descobrimos que de fato há um
grande desejo de sair de uma “crise antropológica” para retomar a própria
humanidade e vivê-la. São
homens emulheresque nos ensinamque as barreirasreais sãoas que temosem
nossos corações:  “Quantas vezesnós
éramos livresfisicamentee
nossoscoraçõesestavam presos,agora estamospor trás dessasgradese os nossos corações estãofinalmente livresdas correntes daopressãointerior”,
disse umdetento, durante umamissa celebrada na Semana Santa.

A aproximação a essa realidade,significalibertação de todos ospreconceitos e”rótulos” pré-construídospor nossosabsurdos padrões de pensamentos,
significa ver esses homens e mulheresnãocomo monstros, mas como sereshumanos, que coma própria vidanos ensinama amadurecera coragem para sairmos das condições de morte,
para liberarmos os corações das correntesda prisão. Meu
compromissoaqui nopostuladoé centradono serviçoda educação nas escolasprimárias eministério de jovensna paróquia denossa vizinhança.Duasrealidadescompletamente diferentes, masna sua
diversidade, permitem-me chegar à maior fonte depotencial humano. Nesta realidade, redescobre-se
o quanto é fundamental a necessidade de uma “promoção humana”, que vê a
capacidade de colocar ao centro a “pessoa”, de acompanhá-la, desde sua
infância, neste caminho no qual é possível redescobrir as próprias
capacidades,  desenvolvê-las e colocá-las
a serviço do Reino. Infelizmente, a “promoção humana” hoje é sufocada pelos
sistemas políticos, econômicos e comerciais, e isto impede que muitos jovens,
adolescente e adultos redescubram e vivam a partir da própria essência,  por isso, muitos são os jovens, adolescentes e
adultos condenados a viverem no esquecimento das inseguranças sufocando cada
vez mais a capacidade de se reconhecerem como pessoas com potencialidade
simplesmente “humanas”, como pessoas capazes de “ser”.

O serviço educativo, os encontros
com os jovens e adolescentes da paróquia me ajudam a refletir sobre este tema,
e a iluminante  inspiração de Comboni
“salvar África com África” cuida um pouco do centro do meu viver esta
maravilhosa realidade. Podemos traduzi-la hoje, neste contexto: “Salvar Europa
com Europa” … E lhes asseguro que realmente funciona! Na verdade, cada vez
que redescubro e contemplo em um destes jovens e adolescentes os grandes dons
de Deus, cada vez que vejo um menino ou uma menina vivenciar e desenvolver uma
habilidade especial, vejo uma parte da humanidade que floresce. Creio que
este período no postulado é um tempo de grande graça no qual, vivendo estas
maravilhosas realidades, vivendo o grande dom da comunidade e experimentando
cada dia a Sua ação na minha vida, por meio da oração, aprendo a despojar-me de
tudo o que não me permite viver plenamente a minha humanidade e dar precedência
ao amor.

 

É um tempo em que não há desculpas que resistem diante da grande
proposta de Deus: aprender a ser construtores de um “outro” Reino a partir do
grande dom à humanidade. Portanto, todos os dias agradeço ao Senhor pelo dom
deste tempo “presente” que hoje me evangeliza, e nutre em mim o grande desejo
de “estar” e caminhar” no seguimento de Cristo, com Ele e n’Ele, em favor do
amor autêntico e gratuito de Deus.

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