sr. Elisabetta Venturini

Elisabetta Venturini:
última sobrevivente da Mahadia e uma das nossas primeiras mártires

Durante o período em que as Irmãs ficaram presas, a  que mais sofreu creio, tenha sido Irmã Venturini
(Teresa Grigolini)

O dia 29 de julho de 69 anos atrás, morria em Cartum Ir. Elisabetta Venturini, a última sobrevivente comboniana  da insurreição islâmica que havia derramado tanto sangue e provocado tanto sofrimento, no Sudão, de 1881 a 1898.  O dia de seu falecimento-  podia-se ler no n. 5 de “Raggio” de 1937 – o governo do Sudão comunicou à Inglaterra a morte da última comboniana do tempo do general Gordon. De Londres, pela rádio, foi transmitida a triste notícia em várias línguas”.

Na realidade, a notícia não era triste, mas sim “bonita”, sendo que Bettina – como carinhosamente a Irmã era chamada – finalmente podia se reunir com as companheiras que a haviam precedido, para gozar com elas aquela Paz que guerra alguma nunca mais poderia perturbar.  A tarde que precedeu sua agonia, como num  pressentimento “ se concluiu com um animadíssimo recreio, durante o qual Ir. Bettina cantou umas estrofes de canções que costumava cantar  Monsenhor Comboni durante a viagem  d) camelo rumo ao Sudão. Bettina não tinha o costume de cantar”, foi o comentário da autora da Crônica e tinha razão.  Diante do que acabava de acontecer, não era fácil ver Bettina  sorrir.  “Nunca a vi  sorrir, nem tampouco rir; – lembrava uma Irmã que havia conhecido Bettina  depois da  prisão – tinha o semblante de uma pessoa sempre mergulhada no passado.  Alguma vez ela relatava algo daquela época de dor e, mas logo, encerrava logo o assunto dizendo: deixa para lá”.

Para Bettina e para as suas Irmãs, tudo começara quando a cidade de El Obeid teve que se render, por fome, ao assédio do Mahdi, jovem e suposto “profeta” muçulmano que em 1881 se  auto-proclamou o “inspirado” por Allah para libertar o Sudão da dominação estrangeira, e restituir ao mundo muçulmano a antiga pureza da fé e do culto.  Encarceradas  e instigadas repetidas vezes – com  lisonjas,   ameaças  e violências – a abraçar a fé islâmica, as jovens missionárias resistiram  com todas suas forças.  O dia em que decidiram de separá-las  para quebrar aquela incrível resistência, Bettina tinha sido “entregue” – como ela mesma escreveu nas suas Memórias – “ao Califfa  Alli Dinar, um dos mais ferozes”.

Quando o acampamento do Mahdi  deixou El Obeid  para alcançar e atacar Cartum, o Califfa também partiu  com todo o seu  cortejo e as suas mulheres escravas. “Entre elas – escrevia Bettina em uma de suas páginas mais   significativas – estava também a Ir. Venturini, naturalmente como escrava, a pé obviamente. Quando chegaram a  Rahah – primeira etapa da viagem – novo interrogatório. À resposta negativa da Irmã  seus algozes, enfurecidos mais do que nunca, inventaram outros tormentos… isto é:  bateram-lhe  com o chicote na planta dos pés por dias consecutivos, até caírem todas as unhas dos pés.  Não podendo mais caminhar, foi jogada atrás da casa dos soldados, como se fosse um bicho, no chão, sem nada.  Afinal, cansados por nada obterem de Bettina e vendo que  não se rendia, uma manhã, de madrugada, amarraram-lhe uma corda ao pescoço e começaram a puxá-la para cá e para lá no meio de uma multidão de curiosos que esperavam que ela se rendesse…  Sendo tudo inútil, sempre mais  enfurecidos, esperando acabar com ela, amarraram – na  a uma árvore e bateram nela sem medida, de manhã cedo até ao meio dia, quando já a Irmã não dava mais sinal de vida…”

Não se sabe como Bettina conseguiu sobreviver a tamanha tortura, é um mistério. O mais importante, seja para ela, como para as outras Irmãs protagonistas desta página extraordinária  de nossa história, é o testemunho que elas deram até o fim, sua fidelidade pela causa missionária;  contribuindo em medida extraordinária a prepararem, com as lágrimas e com o sangue, um terreno fecundo para a nascente Igreja no Sudão.