TRÁFICO DE SERES HUMANOS NA ÁFRICA DO SUL

Estou na África do Sul há um ano e meio. Minha destinação a este país é para estudos universitários, mas durante as férias estou engajada no trabalho pastoral, junto com minha comunidade de Mamelodi, em um subúrbio de Pretória. Os estudos e o empenho pastoral deram-me a possibilidade de adentrar na cultura, na história e na vida cotidiana deste País. Não se pode falar da África do Sul, sem falar de Apartheid, um sistema de dominação política e exclusão social, com base na raça, que governou a África do Sul de 1948 a 1994. As consequências deste sistema são ainda visíveis e palpáveis na insegurança e hostilidade que existem entre a população multirracial da África do Sul. Isto significa que embora o apartheid tenha sido abolido há duas décadas, suas feridas ainda não foram curadas.  
Além das feridas que continuam abertas, o país está sobrecarregado por outros problemas sociais que degradam a dignidade das pessoas e seus direitos inalienáveis, fundados na imagem e semelhança de Deus, que cada pessoa traz em si. Alguns desses problemas são o crime organizado, os abusos contra as mulheres, a xenofobia, aborto desenfreado e o tráfico de seres humanos.
Minha comunidade está comprometida com a promoção e proteção dos direitos humanos, trabalhando especialmente com as vítimas de tráfico, que é uma violação dos direitos humanos e reduz a pessoa ao estado de mercadoria que pode ser vendida, comprada e jogada fora quando não gera lucro.
Conheço e interajo com algumas das vítimas do tráfico que milagrosamente saíram  deste círculo infernal. Das condivisões que as pessoas fazem comigo, das suas horríveis experiências,  entendi claramente várias coisas: O tráfico de seres humanos está relacionado com a questão da prostituição e de mão de obra barata, este tráfego é facilitado pela falta de controle das fronteiras, ausência de leis,  cumplicidade de funcionários públicos corruptos,  impunidade de quem o favorece e é facilitado pelas tecnologias da comunicação moderna.
É triste, mas é verdade que as pessoas são compradas e vendidas como se fossem objeto. As vítimas estão presas em um estado de miséria, são desnutridas, muitas vezes são espancadas e forçadas à prostituição, ao trabalho doméstico, outras são destinadas ao comércio de órgãos.
É difícil ficar indiferente ao tráfico de seres humanos e, acima de tudo, sabendo que ainda hoje o giro é enorme; fala-se de milhões de homens, mulheres e crianças que se tornam vítimas todos os anos. Estimativas recentes falam de 27 milhões de pessoas transformadas em escravos para o trabalho e exploração sexual. Estas estatísticas chocantes deveriam provocar em nós ações concretas para assegurar a libertação destes nossos irmãos e irmãs.
O tráfico de seres humanos não acontece apenas entre países, dados atuais mostram como na África do Sul o fluxo do tráfico ocorre principalmente entre regiões e cidades
Por um longo tempo, o governo da África do Sul, manteve-se calado e indiferente a tudo, só muito recentemente, em 29 de julho de 2013,  que o Presidente Jacob Zuma, aplicando o protocolo de Palermo, que proíbe o tráfico de seres humanos, assinou uma lei que proíbe qualquer tipo de tráfico de seres humanos, tornando-o passível de uma multa de R100 milhões e a prisão perpétua. Mas a falta de vontade política que precedeu esta resolução, incentivou um aumento significativo de pessoas traficadas, deixando os responsáveis impunes ou acusados apenas de contrabando e violência sexual. 
A Comunidade das Irmãs Missionárias Combonianas com Ir. Clara, organizamos trabalhos de grupo e seminários sobre o assunto, promovemos campanhas de informação, formando grupos de jovens.  Além disso, estamos também empenhadas na ajuda terapêutica, física e moral às vítimas para superarem o trauma. Muitas vezes, a pessoa que foi  vítima de abuso tende a fechar-se e não consegue externar a dor. Através de cursos de informática, Ir. Clara consegue criar oportunidades para o diálogo e as pessoas começaram a contar e escrever sua história. Nossa presença proporciona uma sensação de calor humano, de acolhida que, com o tempo, consegue acalmar o senso de culpa e rejeição, ajudando a pessoa a recuperar a confiança nos outros e em si, colocando as bases para sua reintegração na sociedade. As pessoas que ajudamos  são na sua maioria, meninas e mulheres da África do Sul, Zâmbia, Suazilândia, Zimbábue, Ruanda, Uganda, Quênia e a maioria da Tailândia.
Não há dúvida de que a presença das Irmãs Combonianas aqui na África do Sul responde a um dos maiores desafios contemporâneos, com base no coração da missão de Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância”. Os frutos do nosso apostolado são evidentes, por exemplo, quando durante a realização de seminários, as próprias vítimas reconhecem isto, e ajudam os outros a reconhecer atividades suspeitas e perigosas. Além disso, os pais e os jovens ficaram mais atentos e sensíveis ao problema e informam casos suspeitos  à Irmã. Ainda existem muitos casos de sequestros e desaparecimentos, especialmente entre as crianças, mas esperamos que através de programas de sensibilização e a nova lei em vigor, possamos lutar contra essa realidade diabólica.
Convido todos os leitores deste artigo a rezar esta oração a fim de pedir a Deus a ajuda para acabarmos com o tráfico de pessoas:
Ó Deus, as nossas palavras não podem expressar o que nossas mentes não podem compreender e a dor que nossos corações experimentam , quando ouvimos falar de crianças e mulheres que são enganadas, raptadas, levadas para lugares desconhecidos, forçadas à prostituição ou  a trabalhos ilegais, em benefício dos traficantes, escravocratas do mundo moderno. Os nossos corações estão tristes  porque a dignidade e os direitos  dessas pessoas são esmagados com ameaças e torturas. Gritamos a nossa oração contra o tráfico. Protege todas as vítimas, especialmente os mais jovens e mais vulneráveis. Cubra  –os com o Seu amor e o Seu cuidado .  Liberta todas as vítimas e, juntos, possamos encontrar o caminho para a liberdade que é o Teu dom para toda a humanidade. Amém
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TRÁFICO DE SERES HUMANOS NA ÁFRICA DO SUL

12.04.2014

Estou na África do Sul há um ano e meio. Minha destinação a este país é para estudos universitários, mas durante as férias estou engajada no trabalho pastoral, junto com minha comunidade de Mamelodi, em um subúrbio de Pretória. Os estudos e o empenho pastoral deram-me a possibilidade de adentrar na cultura, na história e na vida cotidiana deste País. Não se pode falar da África do Sul, sem falar de Apartheid, um sistema de dominação política e exclusão social, com base na raça, que governou a África do Sul de 1948 a 1994. As consequências deste sistema são ainda visíveis e palpáveis na insegurança e hostilidade que existem entre a população multirracial da África do Sul. Isto significa que embora o apartheid tenha sido abolido há duas décadas, suas feridas ainda não foram curadas.  
Além das feridas que continuam abertas, o país está sobrecarregado por outros problemas sociais que degradam a dignidade das pessoas e seus direitos inalienáveis, fundados na imagem e semelhança de Deus, que cada pessoa traz em si. Alguns desses problemas são o crime organizado, os abusos contra as mulheres, a xenofobia, aborto desenfreado e o tráfico de seres humanos.
Minha comunidade está comprometida com a promoção e proteção dos direitos humanos, trabalhando especialmente com as vítimas de tráfico, que é uma violação dos direitos humanos e reduz a pessoa ao estado de mercadoria que pode ser vendida, comprada e jogada fora quando não gera lucro.
Conheço e interajo com algumas das vítimas do tráfico que milagrosamente saíram  deste círculo infernal. Das condivisões que as pessoas fazem comigo, das suas horríveis experiências,  entendi claramente várias coisas: O tráfico de seres humanos está relacionado com a questão da prostituição e de mão de obra barata, este tráfego é facilitado pela falta de controle das fronteiras, ausência de leis,  cumplicidade de funcionários públicos corruptos,  impunidade de quem o favorece e é facilitado pelas tecnologias da comunicação moderna.
É triste, mas é verdade que as pessoas são compradas e vendidas como se fossem objeto. As vítimas estão presas em um estado de miséria, são desnutridas, muitas vezes são espancadas e forçadas à prostituição, ao trabalho doméstico, outras são destinadas ao comércio de órgãos.
É difícil ficar indiferente ao tráfico de seres humanos e, acima de tudo, sabendo que ainda hoje o giro é enorme; fala-se de milhões de homens, mulheres e crianças que se tornam vítimas todos os anos. Estimativas recentes falam de 27 milhões de pessoas transformadas em escravos para o trabalho e exploração sexual. Estas estatísticas chocantes deveriam provocar em nós ações concretas para assegurar a libertação destes nossos irmãos e irmãs.
O tráfico de seres humanos não acontece apenas entre países, dados atuais mostram como na África do Sul o fluxo do tráfico ocorre principalmente entre regiões e cidades
Por um longo tempo, o governo da África do Sul, manteve-se calado e indiferente a tudo, só muito recentemente, em 29 de julho de 2013,  que o Presidente Jacob Zuma, aplicando o protocolo de Palermo, que proíbe o tráfico de seres humanos, assinou uma lei que proíbe qualquer tipo de tráfico de seres humanos, tornando-o passível de uma multa de R100 milhões e a prisão perpétua. Mas a falta de vontade política que precedeu esta resolução, incentivou um aumento significativo de pessoas traficadas, deixando os responsáveis impunes ou acusados apenas de contrabando e violência sexual. 
A Comunidade das Irmãs Missionárias Combonianas com Ir. Clara, organizamos trabalhos de grupo e seminários sobre o assunto, promovemos campanhas de informação, formando grupos de jovens.  Além disso, estamos também empenhadas na ajuda terapêutica, física e moral às vítimas para superarem o trauma. Muitas vezes, a pessoa que foi  vítima de abuso tende a fechar-se e não consegue externar a dor. Através de cursos de informática, Ir. Clara consegue criar oportunidades para o diálogo e as pessoas começaram a contar e escrever sua história. Nossa presença proporciona uma sensação de calor humano, de acolhida que, com o tempo, consegue acalmar o senso de culpa e rejeição, ajudando a pessoa a recuperar a confiança nos outros e em si, colocando as bases para sua reintegração na sociedade. As pessoas que ajudamos  são na sua maioria, meninas e mulheres da África do Sul, Zâmbia, Suazilândia, Zimbábue, Ruanda, Uganda, Quênia e a maioria da Tailândia.
Não há dúvida de que a presença das Irmãs Combonianas aqui na África do Sul responde a um dos maiores desafios contemporâneos, com base no coração da missão de Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância”. Os frutos do nosso apostolado são evidentes, por exemplo, quando durante a realização de seminários, as próprias vítimas reconhecem isto, e ajudam os outros a reconhecer atividades suspeitas e perigosas. Além disso, os pais e os jovens ficaram mais atentos e sensíveis ao problema e informam casos suspeitos  à Irmã. Ainda existem muitos casos de sequestros e desaparecimentos, especialmente entre as crianças, mas esperamos que através de programas de sensibilização e a nova lei em vigor, possamos lutar contra essa realidade diabólica.
Convido todos os leitores deste artigo a rezar esta oração a fim de pedir a Deus a ajuda para acabarmos com o tráfico de pessoas:
Ó Deus, as nossas palavras não podem expressar o que nossas mentes não podem compreender e a dor que nossos corações experimentam , quando ouvimos falar de crianças e mulheres que são enganadas, raptadas, levadas para lugares desconhecidos, forçadas à prostituição ou  a trabalhos ilegais, em benefício dos traficantes, escravocratas do mundo moderno. Os nossos corações estão tristes  porque a dignidade e os direitos  dessas pessoas são esmagados com ameaças e torturas. Gritamos a nossa oração contra o tráfico. Protege todas as vítimas, especialmente os mais jovens e mais vulneráveis. Cubra  –os com o Seu amor e o Seu cuidado .  Liberta todas as vítimas e, juntos, possamos encontrar o caminho para a liberdade que é o Teu dom para toda a humanidade. Amém
Ir. Leah
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